JULIUS ARP
Conselheiro
da cidade de Nova Friburgo no início do século, foi responsável
pela instalação de empresa textil especializada em bordados
e pela criação da primeira usina hidroelétrica em
Nova Friburgo.
Constituiu
coleção de lepidoptera com patrimônio superior a 15
armários e/ou superior a 600 gavetas. Foi homenageado por
inúmeros pesquisadores, tendo seu nome em espécies de diferentes
famílias. Sua coleção hoje integra o patrimônio
do Departamento de Entomologia do Museu Nacional - UFRJ.
Apresenta
grande importância científica pois reúne tipos, espécimens
raros e espécies ameaçadas de extinção.
Como exemplo do valor de sua coleção citamos a espécie
Dasyophtalma
vertebralis (Butler,
1869) tida como provavelmente extinta.
FRITZ PLAUMANN
Numa aconchegante casa construída na década de 40, cercada
de um bem cuidado e florido jardim, no município de Seara, interior
de Santa Catarina, viveu um dos milhares de imigrantes alemães que
chegaram ao Brasil no início do século. A história
desse teuto-brasileiro seria igual à de tantos outros imigrantes
do sul do país que trabalharam duro para garantir as condições
mínimas de sobrevivência num ambiente inóspito, não
fosse ele Fritz Plaumann, um dos mais respeitados entomologistas do mundo.
Em 70 anos de trabalho dedicado
e apaixonado, esse caçador, colecionador e estudioso de insetos
conseguiu classificar um total de 16 mil espécies. Dessas, 1.500
eram desconhecidas da ciência.
O trabalho meticuloso desse pesquisador
autodidata conquistou o reconhecimento de seus colegas cientistas de todo
o mundo, que batizaram 150 das novas espécies descobertas por ele
com o seu nome. A maioria delas são besouros, como o Atenisius
plaumanni, o Aleiphaquylon plaumanni e o Ormeta plaumanni.
Uma homenagem justa. E talvez a mais importante que já recebeu,
por ser imorredoura. Mas não foi a única. No início
de 1991, recebeu a Grã-Cruz do Mérito Científico da
Alemanha, a mais alta condecoração do gênero concedida
por seu país de origem. Foi homenageado também
pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina),
que em 1985 concedeu, em sua Reitoria, o título de Mérito
Universitário. Foi homenageado pela Assembléia Legislativa
com o título cidadão catarinense.
Modesto, um pouco arcado pela
bagagem de experiências vividas e pelo peso dos anos, o velho cientista
não deixou transparecer qualquer emoção pelo fato
de ter emprestado o sobrenome para identificar novas espécies de
insetos: "Qualquer espécie nova é motivo de orgulho para
mim", dizia, com a humildade própria de um pesquisador abnegado
que cumpriu o seu trabalho. E teve o prazer de realizar a sua vocação.
Desde pequeno, quando ainda morava
em Pressich Eylau, na Prússia Oriental (atual Lituânia), ele
se interessava por animais. Insetos, principalmente. O seu maior prazer
era percorrer as estantes e bancadas do museu de zoologia do colégio
onde estudava e mergulhar nos livros, com gravuras coloridas, que seus
pais, Friederich e Hulde, lhe davam de presente. Membro de uma família
de classe média alta, teve facilidade para se dedicar aos estudos,
até que a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) bombardeou seus sonhos
de adolescente, destruiu a sua cidade, ocupada pelo exército russo,
e trouxe a miséria da depressão econômica para o seu
cotidiano.
A família apostou tudo
na esperança de reconstruir a vida em outro continente. Juntou os
recursos disponíveis e embarcou no sonho de reencontrar a paz e
a prosperidade na terra prometida - o Brasil, onde desembarcou em 1924.
Os Plaumann foram os primeiros a chegar na atual Nova Teutônia, distrito
de Seara, quase 700 quilômetros distante de Florianópolis.
A viagem foi difícil. Os últimos 80 quilômetros tiveram
de ser vencidos em lombo de burro. O jovem Fritz, então no vigor
de seus 22 anos, se entusiasmou com a mata virgem da região. "Fiquei
fascinado com a diversidade da fauna. Na Europa, não imaginava nada
semelhante".
Todos os pormenores dessa viagem
a um mundo novo não estão registrados apenas na memória
do cientista.
Tudo está documentado,
em minúcias, na autobiografia que ele escreveu por cerca de 70 anos.
Ali estão anotadas descrições dos peixes avistados
e as condições do tempo durante a viagem de navio para o
Brasil - um hábito que Plaumann manteve por toda a sua vida, comprovado
pelo lugar de destaque que um barômetro e um termômetro ocupam
na sua sala, na casa em Nova Teutônia, município de Seara-SC,
onde morou. Ele anotava diariamente, a temperatura. a pressão atmosférica,
a precipitação pluviométrica e outras observações
sobre o tempo.
Essa meticulosidade surpreende
sua assistente, Edeltraudt Pierozza, de 37 anos. Ela acompanhou o trabalho
do cientista por mais de 22 anos, que a tratava como uma filha.
Os cuidados com os insetos eram
os mesmos, desde que ele chegou ao Brasil: escrever o nome científico,
o sexo e a espécie de cada inseto, a mão, numa minúscula
etiqueta presa sobre o animal; depois guardar os exemplares em gavetas
de vidro, onde a umidade é controlada e bolinhas de naftalina os
protegem do ataque de insetos vivos. Com esses procedimentos ele nunca
perdeu um único exemplar da coleção, apesar de centenas
deles estarem guardados há mais de 60 anos.
Hoje são 80 mil exemplares
de 16 mil espécies diferentes, adequadamente
preservados em condições ideais de umidade e temperatura,
que formam um
acervo entomológico (entomologia é o estudo dos insetos)
que não poderá ser igualado, pois mais de 70% das 17 mil
espécies catalogadas já não existem mais,
reunidas
no Museu Entomológico Dr. Fritz Plaumann, construído em frente
de sua casa pela prefeitura de Seara e pela Fundação Catarinense
de Cultura, com o apoio do Banco do Brasil, hoje,
um convênio entre a UFSC e a prefeitura
de Seara (detentora do acervo), administram o museu
e garantem a proteção à grande obra de Fritz Plaumann.
São
gafanhotos, bichos-pau, moscas, vespas, percevejos cigarras, baratas, abelhas,
louva-a-deus, besouros, lavadeiras, neurópteros e borboletas diurnas
e noturnas com indescritíveis combinações de cores
e tons.
No caso das borboletas, as musas
da coleção, o cientista teve a preocupação
de demonstrar a evolução completa do inseto, do estado larval
ao adulto. Ele adotou esse mesmo critério em relação
às espécies importantes para o estudo de doenças humanas,
como o mosquito Aedes aegypt, transmissor da dengue e da febre amarela.
Dos exemplares da coleção,
a maioria (95%) é da região do Alto Uruguai, que ele começou
a explorar assim que se instalou em Nova Teutônia, município
de Seara. O começo foi árduo. Tinha de dividir o tempo entre
o trabalho duro de amanhar a terra como agricultor, as tarefas de professor
(responsável pela alfabetização de várias gerações
de habitantes da região) e o estudo de entomologia. Foi também
fotógrafo ambulante e comerciante. Em meio a essas atividades, ainda
arranjava tempo para enveredar pelas florestas do Alto Uruguai, em busca
de insetos. Nessas ocasiões, um cão era o seu único
e fiel companheiro. Só na década de 50 ele teve mais tempo
e recursos para se dedicar às pesquisas. Nessa época, com
um caminhão International ou um jipe importado, rodou pelo Pantanal,
pelo oeste e norte paulista e até pelo Rio de Janeiro em busca de
novas espécies.
Apesar das dificuldades do início,
pela época e pelo local onde vivia, Plaumann conseguiu ser perfeito
no trabalho de captura, conservação e classificação
das espécies apanhadas nas expedições. A falta de
livros de consulta foi solucionada por meio de um intenso intercâmbio,
que resultou em grandes amizades e no seu reconhecimento pela comunidade
científica internacional. Ele enviava insetos e, em troca, recebia
livros e outros insetos. Desse modo, forneceu material para os acervos
de museus de 12 países no mundo, entre eles o British Museum, de
Londres, e os de Estocolmo, Viena e Belgrado.
No Brasil, o reconhecimento da
importância do seu trabalho só ocorreu recentemente. Isso
em parte se justifica pelo fato de que ele tinha fama de esquisito, explica
a sua assistente Edeltraudt. Reservado, ainda hoje ele fala muito pouco.
Só o estritamente necessário. E dificilmente fazia novas
amizades. Prefereria gastar seu tempo livre em companhia da filha adotiva
Gisela Plaumann, de 57 anos, ou lendo livros, ouvindo Mozart, Bach e Haendel
e mesmo executando as obras desses compositores no violino ou no velho
harmônio (um pequeno órgão de salão).
Com o passar do tempo, entretanto,
esse enérgico mestre-escola passou a ser compreendido e admirado
em Seara. Isso impediu que a sua coleção, considerada a mais
importante da América Latina, fosse vendida para a Universidade
Federal do Paraná, num
momento de crise financeira.
A prefeitura da cidade comprou a coleção do seu cidadão
mais ilustre para montar o museu que leva seu nome.
Fritz Plaumann enfrentou também
dificuldades burocráticas e a incompreensão das autoridades
na sua carreira de entomólogo. Na década de 70, foi perseguido
pelo extinto IBDF -Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, acusado
de "dizimar a fauna" porque enviava espécimes de insetos para o
exterior. E só pôde continuar o seu trabalho depois de obter
licença daquele órgão e da Universidade Federal de
Santa Catarina.
Um episódio carregado
de amarga ironia para quem resgatou, para os acervos de museus de todo
o mundo, espécies de insetos que se extinguiram ou que estão
ameaçados de extinção, dizimados por desmatamentos,
agrotóxicos e queimadas.
Nascido em Paris no 12 de junho
de 1908 e registrado no consulado Britânico (pais
ingleses),
o Sr. Henry Richard Pearson, já aos cinco anos de idade, começou
suas atividades no campo da Entomologia/Lepidopterologia estimulado pelo
seu pai, que apesar de
leigo, era um naturalista em
potencial. Durante sua infância e adolescência
viveu entre Londres e Paris, o que lhe proporcionou coletar em terras britânicas
e gaulesas. Durante este período, além de exemplares
de lepidópteros destes países, ele ainda coletou na Escócia,
Itália e Suíça.
Ao completar 20 anos prestou
exame de para a Universidade de Cambridge. Ao completar 20 anos prestou
exame de admissão para a Universidade de Cambridge. Aprovado, cursou
esta famosa universidade durante algum tempo e depois foi para a América,
chegando ao Canadá, onde, ao final dos anos 30 conheceu sua futura
esposa.
Com o romper da 2ª Grande
Guera, ele e Maria Amelia Gabrielle Pearson, se alistaram nas forças
armadas britânicas. Este fato, na realidade, foi estimulado pela
iniciativa de “Gabi” que se alistou como enfermeira voluntária.
Seguindo os passos da esposa, ele também o faz, sendo engajado em
um determinado corpo de infantaria canadense.
Após um censo realizado
pelo governo britânico, onde as autoridades procuravam súditos
que falassem espanhol ou português para servir como observadores
na América do Sul, ambos são escolhidos para missão
no cone sul do continente americano.
Assim, ao final dos anos 30,
desembarcam em Santos para breve passagem por São Paulo, daí
seguem viagem para Argentina/Buenos Aires onde Pearson se estabelece em
uma fazenda do interior e nela trabalha por quase dois anos. Como a proposta
de trabalho, em uma fazenda Paraguaia, feita por um conhecido, segue então
para os “Sertões do Chaco”. Aí reinicia, mais dinamicamente,
suas coletas.
Durante os anos 40, como um novo
posicionamento do governo brasileiro em relação as forças
do eixo (após os torpedeamentos de navios brasileiros), passando
a apoiar os aliados, Pearson, migra para o Brasil. Primeiro vai para São
Paulo e depois para o Rio de Janeiro, onde com apoio das autoridades, implanta
industria farmacêutica voltada a pecuária de nome Pearson
Ltda.
Em 1943, conhece o colecionar
Wygodzinki, que o estimula ao aprimoramento no estudo da entomologia e
o leva a conhecer o ilustre professor e pesquisador do Instituto Oswaldo
Cruz, Lauro Travassos. Neste instituto, sob orientação de
Travassos, estagia durante 7 anos, desenvolvendo seus conhecimentos
entomológicos junto com o colega Alfredo Rei do Rego Barros,
que viria a ser o responsável pela sua ligação com
o Museu Nacional (UFRJ).
Durante as décadas de
50 e 60 realiza várias excursões entomológicas tanto
pelo Instituto Oswaldo Cruz como pelo Museu Nacional. Viaja por todo
o Brasil, destacando-se por exemplo, as incursões na Serra do Cachimbo,
PA. A partir da segunda metade dos anos 60, com a expansão
da sua industria, viaja por quase toda América (Argentina, Uruguai,
Paraguai, Chile, Bolívia, Colômbia, Venezuela, México,
Canada e USA), visando implantação de relações
comerciais. Paralelo a isto, realizava sempre que podia, coletas por onde
passava. Destacam-se as feitas na Venezuela e Colômbia, onde coletou
valiosos exemplares de mariposas das famílias Sphingidae, Saturniidade
e Mimallonidae.
Assim, os frutos destas excursões
entomológicas foram os seguintes: ampliação
da relação com os pesquisadores do Museu Nacional. Conhece
o pesquisador José Oiticica Filho, o qual foi no Brasil, o seu principal
colaborador. Estabelece também, colaboração
valiosa com o Museu de História Natural de Londres.
No British Museum encontra o apoio do Professor Allan Watson, que viria
a ser seu maior amigo nesta famosa casa de pesquisa. Ainda nesta última
década adquire, por conselho de Travassos, o seu sítio no
Município de Guapimirim, RJ. Este fato, o estimula mais ainda a
ampliar sua coleção.
Tem início sua atividade
literária. Especialista em mariposas da família Mimallonidae,
publicou cerca de uma dezena e meia de trabalhos científicos, sendo
a grande maioria, notas em congressos. Já, artigos científicos
em revistas foram 5. Dentre estes destacam-se três: CONTRIBUIÇÃO
AO CONHECIMENTO DO GÊNERO “MIMALLO” HUEBNER, 1920 (Lepidoptera, Mimallonidae)
– com a descrição de uma nova espécie, Mimallo
neoamília, UMA NOVA ESPÉCIE DE “DIRPHIOPSIS” BOUVIER (Lepidoptera,
Saturniidae, Hemileucinae) – com a descrição de Dirphiopsis
wanderbilti, SOBRE O GÊNERO TOLYPIDA SCHAUS, 1928 (LEPIDOPTERA, MIMALLONIDAE)
COM DESCRIÇÃO DE NOVA ESPÉCIE – onde a nova espécie
Tolypida spitzi é descrita.
Nos anos 70 e 80, torna-se o
maior colaborador externo para assuntos ligados Lepidopterologia, do professor
Allan Watson do British Museum, para quem enviou milhares de exemplares
de mariposas. Pelo Brasil, amplia ainda mais suas excursões
contando sempre com a freqüência de colegas, tais como: Oiticia,
Rego Barros, Olaff Mielke, Luiz Otero e outros. Doa maior parte da sua
coleção ao Museu
Nacional.
Na primeira metade dos anos 80,
inicia o ciclo final de coletas em Guapimirim, onde acompanhado pelo
estagiário Alexandre Soares, conclui sua coleção que
hoje integra o patrimônio do Museu Nacional e que conta com aproximadamente
19.500 exemplares, sendo que, dentre este, as espécies da Família
Mimallonidae constituem a melhor representação mundial deste
grupo.
Nos anos 90, dedicou-se apenas
as coletas em Guapimirim e de exemplares das famílias Mimallonidae
e Sphingidae, visando completar sua a coleção em sua especialidade
(Mimallonidae) e levantar a esfingídiofauna” na região. Em
1993, aos 85 anos de idade, aposenta-se das atividades entomológicas,
devido a impossibilidade de guiar seu auto meio que lhe proporcionava o
deslocamento semanal ao sítio em Guapi.