PREPARANDO A CÂMARA ÚMIDA

Normalmente todo colecionador de insetos prefere, ao final do dia de coleta, preparar os espécimes coletados e esticá-los naquele mesmo dia, enquanto estes ainda estão frescos.  Contudo quando se viaja para coletar longe, onde se passam vários dias antes que se possa retornar para casa, se torna inviável preparar os espécimes.  Não é bom ter que viajar levando esticadores, com insetos neles, o risco de acidentes é sempre muito grande.
Nesses casos, o ideal é coletar os espécimes e mantê-los em seus envelopes, deixando-os secar ali mesmo, com as asas fechadas.  Desse modo o transporte dos espécimes é muito mais seguro e ocupa muito menos espaço.  Uma vez secos, voce não precisa ter pressa em preparar os espécimes.  Pode fazer isso  em qualquer tempo.
Em um dado momento voce decide esticar aqueles espécimes já secos que voce coletou na semana passada, nas últimas férias, ou mesmo aqueles espécimes que voce adquiriu já secos, aqui mesmo do Brasil ou vindo de qualquer outra parte do mundo.  Nesse momento voce irá precisar da câmara úmida para relaxar as articulações ressecadas dos espécimes secos.
A câmara úmida é simplesmente um recipiente plástico plano, ou mesmo uma lata de biscoitos, na qual é colocada uma camada de papel absorvente (papel-toalha) no fundo, algo perto de 10 folhas desse papel.  Adiciona-se água até umidecer bem toda a camada de papéis e é nesse recipiente plástico ou de lata, que deve ser hermético, que voce coloca os espécimes secos, sem os envelopes.

RELAXANDO OS ESPÉCIMES
Método tradicional

Retire os insetos de seus envelopes e os coloque dentro da câmara úmida.  Se os dados referentes aos insetos estiverem anotados nos envelopes, reserve-os com cuidado para não confundir um com outro.
Será prudente que voce não coloque os insetos diretamente sobre a camada de papéis úmidos, pois isso poderá fazer com que a umidade seja absorvida de forma desigual pelo corpo do inseto, fazendo com que do lado em contato direto com a superfície úmida ele amoleça rapidamente enquanto permanece rígido do outro.
Coloque tiras de isopor no fundo da câmara, e coloque os espéciemes por sobre isso, como as carnes de um churrasco que ficam em cima de uma grelha, e não diretamente sobre as brasas...  Desse modo o corpo ressecado do inseto absorve a umidade presente no ar circundante.  É fundamental colocar naftalina ou qualquer outro produto anti-mofo dentro da câmara úmida, pois o ambiente extremamente úmido pode propiciar a formação de fungos e mofo nos insetos.

Normalmente o tempo necessário para relaxar um espécime de porte pequeno, como por exemplo uma Phoebis (Pieridae), é de aproximadamente uma semana.  Esse tempo irá variar de acordo com o tamanho do inseto e a vedação da câmara.  Se o nível de umidade dentro da câmara úmida diminuir por falha de vedação, o tempo necessário até o inseto estar apropriadamente relaxado irá se estender.
Caso voce coloque insetos de diferentes tamanhos simultâneamente na câmara, voce terá que verificar periodicamente o progresso do relaxamento dos exemplares.  Quando um inseto grande como uma Caligo estiver relaxada, uma Eurema já estará se desmanchando... Um inseto apropriadamente relaxado terá o movimento de asas fácil, semelhante ao de um inseto fresco.


RELAXANDO OS ESPÉCIMES
Método rápido

Muitas vezes a expectativa faz com que fiquemos ansiosos para preparar aquele espécime exótico, de uma espécie que normalmente voce teria que viajar para muito longe caso quisesse ter uma oportunidade (não a certeza...) de coletá-lo voce mesmo, algo que demandaria muito tempo e dinheiro...
Para esses casos há um macete muito interessante que pode ser utilizado, desde que se tenha um pouco de cuidado.  A câmara úmida continua sendo importante, mas passa a ser o segundo passo do processo que consiste em utilizar água fervente para acelerar o processo de relaxamento do espécime.  A coisa funciona da mesma forma que cozer massas...
Se voce pegar uma vareta de macarrão crú e colocar em água à temperatura ambiente, este irá amolecer da mesma forma que sendo cozido, só que levará muito, muito mais tempo...  Quando a água impregnar a massa em seu ponto mais profundo, o exterior estará se desmanchando...
A água fervente acelera esse processo e penetra rapidamente na massa, fazendo em alguns minutos o que a água fria levaria dias para fazer.
O mesmo se pode fazer com um inseto seco. Tudo o que é necessário fazer é injetar água fervente no tórax do inseto, mantendo o fluxo da água constante para "cozer" as ligaduras e músculos ressecados em seu interior.  Com esse processo voce consegue em alguns minutos algo que voce somente veria depois de muitos dias.  Siga as etapas abaixo:
 
 
Voce precisará de uma seringa hipodérmica com agulha, uma pinça e um recipiente para ferver água.  Devido a temperatura da água, seria oportuno se a seringa fosse de vidro e a agulha tivesse a base de metal.
O uso constante de água fervente dentro da agulha e seringa plásticas não é uma situação prevista no projeto desses itens e isso irá reduzir o tempo de vida útil de ambas.  É importante ter mais de uma em reserva e alternar o uso entre os dois conjuntos sempre que sentir que o plástico começa a amolecer sob o efeito da temperaturada água. Isso geralmente começa a ser notado na base da agulha, que é metálica, e absorve mais rapidamente a temperatura.
Retire o inseto de seu envelope e, segurando-o pelo tórax entre os dedos polegar e indicador, introduza a agulha no tórax, pela parte inferior trazeira, logo abaixo do abdomem.  Avançe com a agulha até que voce possa concluir que a ponta desta, por onde sairá a água fervente, está posicionada no centro do tórax.
É importante que voce faça isso com cuidado e atenção, pois nesse momento o inseto ainda está bastante seco e quebradiço.
Não é necessário que a agulha esteja conectada à seringa nesse momento
Com a água já fervendo, encha a seringa em toda a sua capacidade e conecte-a à agulha que está no inseto. Feito isso vá injetando a água fervente lentamente e em ritmo constante, algo como 2/10ml por segundo.  A água irá inundar todo o tórax do inseto e começará a transbordar, vazando por poros entre as divisões do tórax e a base da cabeça.  Voce deve continuar injetando a água fervente, desconectando a seringa da agulha (que deve permanecer no inseto) e re-abastecendo-a de água repetidas vezes.  Voce deve continuar até sentir que as asas do inseto começam a afrouxar ao ponto destas estarem tão flexíveis quanto as de um inseto fresco.  Com um espécime grande como o Caligo martia da foto, isso acontece em tres minutos.

DICA:
Muitas espécies de lepidópteros, especialmente os noturnos, apresentam o corpo coberto de escamas filiformes (em forma de pelos) na parte superior do corpo.  Estas escamas normalmente são impermeáveis à água fria, porém a água fervente pode encharcá-las se transbordar pela face superior da articulação das asas.  A aparência do inseto será severamente prejudicada se isso ocorrer, pois as escamas enxarcadas não retornarão ao aspecto "felpudo" que tinham quando estavam secas, de modo que é bom fazer pequenos furos com a agulha nas laterais do tórax antes de injetar a água fervente, e assim dar pontos de fuga para o fluxo de água, impedindo que ela enxarque os "pelos" do inseto.
 
Com esse processo alternativo de relaxamento, voce abreviou muitos dias de espera, se comparado com o método tradicional.  No entanto a água fervente não surte efeito algum em outras partes do corpo do inseto, como patas e antenas, mesmo as asas só são relaxadas em sua articulação.  A superfície geral da asa do inseto guardado em um envelope pode estar enrugada, e precisa ser um pouco impreganada de umidade para que isso possa ser corrigido.  Desse modo após o breve "cozimento" com água fervente, o inseto deve então ser colocado na câmara úmida para relaxar essas partes citadas. O processo todo se conclui em dois ou tres dias.

OUTRAS UTILIZAÇÕES DA CÂMARA ÚMIDA

A câmara úmida é um recurso útil não apenas para a montagem de espécimes secos que ainda estajam envelopados.  Com esse processo voce também pode corrigir a montagem de um exemplar antigo, preparado há muito tempo e que, por pouca prática, tenha sido montado incorretamente.
Basta espetar esse espécime na câmara úmida e deixar relaxar um pouco (o processo de água fervente também ajudaria nesse ponto).  O mesmo também pode ser feito no caso de um espécime em um alfinete comum, já oxidado, para remover o alfinete ruim e substitui-lo por um alfinete entomológico.
Nesse caso em particular pode-se dispensar a câmara úmida e fazer uso apenas do processo de água fervente, já que não será necessário alterar qualquer aspecto da montagem do inseto.  Com bastante cuidado, use um alicate para cortar a cabeça do alfinete e, depois do inseto relaxado pela água fervente, segure-o com os dedos indicador e polegar para parte inferior do tórax com uma mão, e com a outra segure firme o alfinete pela sua ponta aguda. Forçe-o lentamente a girar no próprio eixo do alfinete até sentir que o inseto está livre.  Nesse ponto, em que o alfinete antigo já está sem a cabeça, começe a mover o inseto para cima em movimentos oscilatórios até que este fique completamente livre do alfinete que terá saido pela sua parte inferior, deixando o orifício intacto no dorso do inseto.
Por este orifício voce deve introduzir o novo alfinete até a posição correta e então fixe o inseto com um pouco de cola branca na face inferior, para que este não fique girando no alfinete novo.