Embora você me conheça bastante, apresento aqui um breve relato sobre minhas atividades levadas a efeito durante mais de trinta e cinco anos de luta para resgatar em nosso país o "status" que a ciência merece, para valorizar o mercado de trabalho dos biólogos, agrônomos e engenheiros florestais e para divulgar a conscientização da importância da preservação dos ecossistemas naturais e da biodiversidade, inclusive para a própria sobrevivência da espécie humana.
Desde a mais tenra idade sou deslumbrado pela natureza e tornei-me um entomólogo amador. Assim, quando jovem, sonhava diplomar-me em "História Natural" ou Agronomia (à época inexistiam Faculdades de Biologia) e então aproximei-me dos profissionais das instituições que tratam deste assunto (Museu Nacional do Rio de Janeiro, Instituto Oswaldo Cruz e Serviço de Defesa Fitossanitária do Ministério da Agricultura), onde estabeleci sólidas amizades e aprendi as técnicas básicas de coleta e de taxonomia. Já àquela época pude constatar as enormes dificuldades com que laboravam os técnicos daquelas instituições, decorrentes do preconceito geral da sociedade (que encarava aqueles pesquisadores como anormalóides ou mesmo como rematados malucos) e do descaso das autoridades, que não garantiam sua valorização profissional nem a recomposição dos quadros com novos técnicos, à medida que os antigos faleciam ou se aposentavam. Acrescente-se a isso, o expurgo de cientistas verificado após o “Golpe de 64”, quando transformaram, como você sabe, o próprio Instituto Oswaldo Cruz em Quartel-General. Como um exemplo ilustrativo da falta de perspectivas reservada aos cientistas à época, posso citar o de um conhecido biólogo, que trabalhou como "estagiário", gratuitamente, no Setor de Entomologia do Museu Nacional durante mais de quatorze anos e não foi assimilado por aquela instituição. Desde então, embora tenha havido uma ligeira melhoria no que se refere aos preconceitos, o quadro tem piorado consideravelmente, com os sucessivos cortes dos recursos destinados ao ensino público e às instituições científicas, onde hoje freqüentemente os funcionários têm que se cotizar para adquirir equipamentos e até materiais básicos como lâmpadas e papel higiênico. ( !!! ) Face às circunstâncias desta realidade, decidi formar-me em Arquitetura, pela qual sou também apaixonado, da qual vivo e que também sustenta as despesas com minhas atividades como entomólogo amador.
No decorrer de mais de três décadas e meia, à custa de muito sacrifício e de despesas pessoais, consegui constituir um patrimônio científico e cultural respeitável, representado por uma coleção com mais de cem mil exemplares de coleópteros. Destes, mais de 60% são neotropicais (da América Central e do Sul) e os demais, foram obtidos através de um árduo sistema de trocas com centenas de entomólogos de diversas partes do mundo no decurso de décadas. Além disso, descobri diversas espécies novas de coleópteros, algumas das quais ainda por serem descritas e outras tantas, focais, que acham-se hoje em vias de extinção, em decorrência, especialmente, dos seguintes motivos: degradação de seus ecossistemas pela "chuva ácida", ocasionada pela poluição; desmatamentos criminosos efetuados pelas madeireiras (que para obter sua matéria prima destroem tudo mais ao redor); desmatamentos e incêndios promovidos pelos latifundiários para implantação de monoculturas ou para exploração da pecuária; rápida devastação, conseqüente do avanço inexorável dos empreendimentos imobiliários sobre áreas que deveriam ser preservadas: envenenamentos produzidos por garimpeiros ou pelo uso geral indiscriminado de inseticidas e de defensivos agrícolas etc... .
Com base no material que coligi, produzi meu livro "BESOUROS E SEU MUNDO",
ilustrado com mais de 1.420 desenhos a cores de besouros desenhados por
mim mesmo ao longo de mais de vinte e dois anos. Esta obra, além
de um "Prêmio de Cultura", que me foi conferido pela Associação
Internacional de Lions, foi enquadrada pelo Ministério da Cultura
em 1996, sendo desde então previstos incentivos fiscais para as
empresas que se disponham a financiá-la, devido aos elevados custos
para sua impressão. Apesar disso, os recursos necessários
ainda não foram obtidos, pois as empresas normalmente preferem financiar
peças de teatro, eventos desportivos ou "shows" musicais que lhes
proporcionam retorno mais imediato em termos de
publicidade. Não obstante, o livro tem sido produzido artesanalmente
por mim, o que obviamente acarreta um custo final bastante elevado para
os padrões brasileiros (seu valor atualmente é de R$ 200,00
o exemplar). Isto resulta num lucro insignificante para mim como
autor e dificulta a efetivação do seu principal propósito,
que é o de divulgar estas idéias ao maior número possível
de pessoas. Posteriormente, foi elaborado por sua providencial iniciativa
(pelo que sempre lhe serei grato), aquele abaixo-assinado com aposição
das assinaturas de mais de vinte entomólogos profissionais
de diversas instituições científicas (Museu Nacional
/ UFRJ, Fiocruz, IAB, IEPA, SME etc...), atestando a importância
do meu trabalho e apelando por sua publicação através
de uma editora oficial do Governo, com vistas ao seu barateamento, mas
até o momento nenhum resultado foi ainda obtido, embora eu já
tenha conseguido vender mais de 500 exemplares. Também em
decorrência deste meu trabalho, fui eleito entre onze candidatos
para ocupar a Cadeira Nº 7 (Costa Lima), na Academia de Letras, Artes
e Ciências (ALAC), tendo também recebido a Comenda do Mérito
Científico 2000.
Paralelamente, juntamente com outros abnegados idealistas de diversas
profissões (Arquitetos, Biólogos, Agrônomos, Médicos,
Arqueólogos, Militares, Publicitários, Empresários,
estudantes, entre outras), fui sócio-fundador e um dos Presidentes
do Centro Entomológico Brasileiro (CEB), uma entidade sem fins lucrativos
(ONG), dedicada à valorização da Entomologia e à
divulgação da conscientização da importância
da presevação ambiental e da valorização da
Ciência. Além das reuniões mensais efetuadas na Reserva
Florestal do Grajaú, onde mantínhamos inclusive uma biblioteca
e uma exposição públicas permanentes, aquela entidade
durante quase vinte anos ofereceu palestras e cursos gratuitos, teóricos
e/ou práticos, em escolas e universidades, apresentando também
exposições de espécimes e de seus equipamentos especiais,
inclusive em feiras de ciências e eventos de cunho ecológico.
Diante dos fatos acima expostos, você pode imaginar o choque
traumático que sofremos quando assistimos pela televisão
a primeira de uma série de reportagens capciosas e sensacionalistas,
execrando os cientistas e pesquisadores, mostrados com estudadas imagens
em ângulos infelizes, de modo a colocá-los quase como monstros
malfeitores, do tipo "Doutor Silvana", enquanto enaltecia as "vantagens"
das práticas de curandeirismo, mostrando, com a conivência
de uma artista famosa, os depoimentos de "milagreiros" que preconizavam
a imolação de animais selvagens raros para que fossem feitos
"trabalhos" com suas cabeças, com seus membros ou com outras partes
de seus corpos para a obtenção de efeitos miraculosos. Entre
os
vários exemplos "edificantes" mostrados na ocasião, destacavam-se
as "virtudes" do olho esquerdo do boto da Amazônia para atrair o
homem desejado. Ao final daquela inconseqüente e tendenciosa "reportagem",
ainda apresentaram, como se se tratasse de um inadjetivável "serial
killer", um "ignóbil biopirata" belga, flagrado em plena atividade,
contrabandeando os "besouros Morpho" (?!!!), para que deles fossem retiradas
fabulosas substâncias químicas para a industrialização
de remédios, enfatizando perversamente o detalhe da observação
do "dealer" para que não deixasse de enviar seus abdomes, de onde
certamente seriam retiradas as fantásticas substâncias. Ora,
qualquer principiante em Biologia sabe que há séculos é
habitual a
retirada dos abdomes das borboletas Morpho, pois os mesmos depois
da morte do animal liberam gorduras que mancham suas belas asas iridescentes.
Como atualmente existem recursos para desengordurar os espécimes,
o tal "dealer" fez aquela observação, dispensando a desnecessária
mutilação do animal. Tal ignomínia mostra-se tão
mais espantosa, quando se sabe que aquele homem humilhado e desmoralizado,
era um desprevenido entomólogo, conhecido nos meios científicos,
que fazia trocas de espécimes e fornecia ao “dealer” as duplicatas,
cujos valores normalmente são arbitrados em função
da dificuldade de obtenção. Por infelicidade, aquele
homem foi usado como "boi-de-piranha". Entretanto, naquela mesma "reportagem",
o
"caminho das pedras" para a verdadeira "biopirataria" foi cândidamente
mostrado, como se fosse a coisa mais natural do mundo: estudantes de diversas
universidades coletavam exemplares de todas as plantas possíveis
para encaminhá-las legalmente para as instituições
norte-americanas de pesquisas, onde serão certamente patenteadas,
ou seja, "biopirataria" com aval governamental e concomitante engessamento
da ciência brasileira. Em resumo: mais um verdadeiro crime de "lesa-pátria".
Muitos aspectos dessa ótica míope necessitam de uma análise cuidadosa e isenta:
1 - Como você sabe, em 1992, quando da realização
da Rio Eco-92, os representantes de mais de 170 países assinaram
a Agenda 21, um documento de extraordinário alcance, apontando
as causas dos problemas ambientais, dimensionando recursos, indigitando
meios para a obtenção dos mesmos e apontando responsabilidades,
de modo a resolver os citados problemas. Como os termos daquele
documento iam contra os vampirescos interesses de grandes indústrias
e laboratórios, muito bem defendidos em uma infame “Lei de Patentes
sobre produtos biológicos”, que os Estados Unidos literalmente obrigam
nosso (des)Governo a reconhecer, os EUA vetaram aquele documento, sem se
importar com a ofensa frontal
que tal atitude representava àqueles co-signatários.
Desde então, o documento em questão foi sendo criminosamente
asfixiado, com a cumplicidade de nossos "desgovernantes de plantão"
e, por nossa goela abaixo, tem sido empurrada essa execrável "Lei
de Patentes" para seres vivos, que nos obriga ao pagamento de "royalties"
pelo uso dos nossos próprios produtos naturais brasileiros por eles
patenteados. Deste modo, hoje entendem que devemos pagar-lhes para
que possamos usar inúmeros desses produtos, como o urucum, por exemplo,
que há milênios sempre foi utilizado pelos nossos indígenas,
assim como
outros produtos tradicionalmente empregados em nossa medicina popular.
O que deveria ser motivo de total empenho do nosso Governo, seria no sentido
de repudiar aquela Lei iníqua, alocar os recursos necessários
para o desenvolvimento das pesquisas aqui mesmo no Brasil, se empenhar
pela valorização profissional dos nossos cientistas (cujo
êxodo para fora do país tem sido crescente, desfalcando-nos
de todo o investimento feito aqui para a formação dos mesmos),
bem como pelo incentivo ao desenvolvimento das indústrias brasileiras,
que cada vez cerram suas portas em maior número. Falar de competitividade,
no mercado mundial nas circunstâncias atuais é um sofisma
indecente, empregado para coonestar uma postura canibal, que eqüivaleria
a colocarmos em igualdade de condições um Bill Gates para
negociar com os Ianomâmis.
Todos os países hoje desenvolvidos se valeram temporariamente
de medidas protecionistas até que seu contexto se tornasse efetivamente
competente e competitivo, antes de procederem a uma "abertura" completa.
Além disso, na situação atual, querer impedir que
os produtos naturais sejam estudados e utilizados no exterior para a produção
de remédios de última geração sem que aqui
se ofereça qualquer possibilidade de pesquisá-los é
um crime contra a humanidade. O que se faz necessária é uma
regulamentação dos meios de exploração
com um conseqüente controle e adequada tributação sobre
os produtos, para que os brasileiros também possam usufruir dos
lucros auferidos com os avanços da medicina (ou da Ciência
“lato-sensu”).
2 - Face à capacidade reprodutiva assombrosa de que a maioria
dos insetos é dotada, sabe-se que mantidas as condições
de equilíbrio ecológico, sua população jamais
decresceria. Basta se pensar, por exemplo, quantas milhões de baratas
são mortas por segundo em todo o mundo. Acaso estão em extinção?
Evidentemente não, pois os ecossistemas em que vivem não
estão ameaçados. Ainda que fosse possível manter-se
um nível de coleta sistemática de até 90% do total
de seus indivíduos, os números das populações
de insetos seriam repostos a cada geração seguinte. O limitador
para impedir sua explosão populacional é a própria
capacidade de suporte de ecossistemas saudáveis. Entretanto, se
uma área é devastada, todas as
espécies que ali vivem desaparecerão. Os ecossistemas,
estes sim, precisam ser protegidos e preservados com leis inteligentes,
que poderiam, por exemplo, estabelecer um imposto territorial de valor
gradativamente maior, em progressão inversamente proporcional à
área de cobertura vegetal nativa das terras improdutivas.
Assim, caracteriza-se como uma estupidez inenarrável, vetar-se a
coleta de alguns exemplares para fins científicos ou didáticos
ou a permuta de espécimes com especialistas estrangeiros, sob o
pretexto de isto pode colocá-las em risco de extinção
ou por caracterizar-se como prática de "biopirataria". O que tal
veto acarreta, é apenas mais um brutal entrave para o desenvolvimento
e a divulgação da ciência em nosso país, com
a criminosa estigmatização e/ou "linchamento" de pessoas
idôneas dedicadas à ciência. Diante da incoerência
inacreditável da linha de raciocínio predominante entre as
autoridades e não querendo acreditar na enormidade de tamanha incompetência,
só nos resta concluir que trata-se de um deliberado desvio do foco
da questão. Os verdadeiros culpados, os devastadores ambientais,
possivelmente os donos de madeireiras ou garimpos ou os grandes latifundiários,
que com consentimento das autoridades derrubam vastas extensões
de matas primárias para produzir pasto, entre outros, provavelmente
tomaram a iniciativa do ataque contra os indesejáveis entomólogos,
pela ameaça que estes representam aos seus interesses, tendo em
vista que para estes estudiosos, profissionais ou amadores, só
interessa que as espécies de
seres vivos, especialmente os insetos, jamais desapareçam.
Além disso, um trabalho científico sério, comprometido
com a preservação ambiental, poderia detectar a queda acelerada
da biodiversidade em função da tremenda devastação
que aqueles promovem e um alarme nesse sentido poderia mobilizar a opinião
pública, comprometendo as atividades exploratórias devastadoras
que promovem. Vale observar, que em função de seu poderio
econômico, esses exploradores patrocinam a eleição
de algumas dezenas de deputados, que legislam em defesa de seus interesses,
enquanto a classe dos cientistas, profissionais ou amadores, dificilmente
consegue eleger até mesmo um vereador.
3 - Quanto ao "contrabando" de animais vivos, é preciso que se adote uma política inteligente, como a que se pratica em alguns países do assim chamado "primeiro mundo". O que historicamente se observa é que quando se criminaliza uma atividade, esta se torna valorizada e cada vez mais compensadora. Vide o exemplo da "Lei Seca" nos Estados Unidos, que em um curto espaço de tempo promoveu um aumento considerável da criminalidade e enriqueceu sobremaneira os "gangsters". Felizmente os legisladores de lá caíram em si e revogaram aquela estúpida lei baseada numa ótica que se demonstrou equivocada.
Como outro exemplo, podemos enfocar a grande luta que se verifica na África para tentar salvar da extinção os rinocerontes, cujos cornos são estupidamente considerados afrodisíacos. Nem mesmo o risco de serem mortos pelos ferozes guardas fortemente armados, o que acontece com freqüência, inibe a atividade criminosa dos "poachers", pois quanto menor se torna a população desses paquidermes, mais o valor de seus cornos aumenta em função das dificuldades para sua obtenção, compensando qualquer risco. Assim, a maneira mais inteligente de evitar o desaparecimento de espécies ameaçadas é regulamentar sua criação, para uma exploração racional dos recursos que oferecem e possibilitar uma arrecadação de impostos sobre as atividades correlatas.
Temos também um exemplo nosso a citar, com referência aos
espécimes de Mico-leão dourado, que apesar de todas as medidas
protecionistas e da bioparanóia, que à época previa
prisão inafiançável para quem os capturasse, teve
sua população reduzida quase à extinção,
a qual só não se verificou, graças ao fato de existirem
criadores em outras partes do mundo, que cederam exemplares para um
programa de reintrodução dos mesmos em seu hábitat
natural. Por outro lado, os animais que são contrabandeados, freqüentemente
bem ocultos e em condições infames, devido à fiscalização
e às restrições legais, visam atender à demanda
de criadores que alimentam um mercado de "pets". Quero deixar claro que
não estou defendendo o contrabando e ao tráfico ilegal, que
além de tudo, acarretam sofrimentos indescritíveis aos animais.
Contudo, se tal atividade fosse regulamentada e legalizada, as espécies
poderiam ter suas populações aumentadas, as condições
de transporte seriam melhoradas e fiscalizadas e as atividades sub-reptícias
não mais compensariam. Além disso toda a sociedade também
teria a lucrar com a arrecadação de impostos subseqüente.
Um exemplo irretorquível é o da cultura japonesa referente
à criação
de animais, especialmente de besouros em terrários e freqüentes
reintroduções em áreas onde estejam ameaçados.
Tendo o Japão uma fauna ínfima, um território limitadíssimo
e uma superpopulação humana explosiva, ainda assim, as
espécies da sua fauna e flora estão a salvo de qualquer possibilidade
de extinção (vide na internet o site "An Introduction
to Japan's beetle culture").
Como se sabe, os estudos ecológicos têm que ser necessariamente antecedidos pelos estudos taxonômicos básicos para o conhecimento das criaturas que compõem os ecossistemas e por um exaustivo estudo de suas biologias, pois para se preservar ou recompor uma "organização", é necessário que se saiba como ela funciona. Assim, como se pode pretender preservar a integridade de ambientes se a simples catalogação das espécies que os compõem ainda está muito longe de ser totalmente efetuada?
Cabe aqui destacar o artigo do Sr. José Carlos Lopes (biólogo
e consultor do IBAMA), veiculado na Internet, intitulado "Tráfico
Ilegal de Animais Silvestres no Brasil". Este senhor, talvez bem intencionado,
mas certamente desorientado, com uma argumentação "macarthysta",
atrelada a uma ótica bombástica e policialesca, fornece subsídios
extremamente alarmistas àquela instituição, estimulando
a "bioparanóia" e prestando, talvez involuntariamente, um desserviço
à classe dos biólogos, cujo mercado de trabalho já
é tão restrito. Diante de tal ótica, percebe-se uma
clara e furiosa pré-disposição para supervalorizar
a
criminalização e imaginar fantásticos "cartéis"
de bio-traficantes assassinos, dispostos, segundo afirma, a "eliminar
fisicamente" os opositores aos seus interesses, quando o mais importante
aspecto que ele deveria enfocar, seria o de enfatizar a conscientização
da importância da preservação ambiental em si. Hoje
os biólogos foram em sua grande maioria condenados a uma situação
de mendicância, sempre correndo atrás de bolsas com remunerações
aviltantes ou prostituídos por grandes empresas, especialmente no
mercado imobiliário, para que forneçam "relatórios
de impacto ambiental", dando "sinal verde" para a devastação
de grandes áreas. Contra esta situação e contra
a famigerada "Lei de Patentes" para seres vivos, a que já nos referimos,
é que aquele articulista deveria se manifestar com tanta ênfase
e indignação, procurando identificar, outrossim, os verdadeiros
cartelistas, oligopolistas e mafiosos responsáveis pela DEVASTAÇÃO
AMBIENTAL.
Recentemente um “ecologeiro” xiita queixou-se comigo sobre uma prática que deveria exigir medidas enérgicas por parte do governo, no sentido de coibi-la: trata-se do crime hediondo de se “torturar” vegetais para se produzir Bonsais ( ? !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ) - Sem comentários...
Outro, talvez irrefletidamente, referindo-se a um “dealer”, classificou como inaceitável a comercialização de seres vivos. Ora, a aceitarmos esta ótica, deveríamos defender uma intervenção da Polícia Federal nas feiras-livres, para atirar em jaulas infectas aqueles feirantes canalhas, que na maior promiscuidade colocam à venda seres vivos (arroz, feijão, maçã, peixes etc...) para serem esmigalhados pelas mandíbulas de ávidos consumidores (santa imbecilidade!).
Atualmente, face ao quadro acima descrito, as atividades do Centro Entomológico
Brasileiro (CEB), como você também sabe, acham-se literalmente
paralisadas, diante de uma verdadeira "criminalização" das
práticas entomológicas, decorrente da desinformação
(a nosso ver deliberada), com propósitos infames e inconfessáveis,
favoráveis a quem lucra defendendo idéias e artifícios
deletérios para o Brasil. E assim digo com a voz da experiência,
pois apesar de tudo o que os membros de nossa associação
já fizeram em prol da ciência em nosso país, nada lhes
foi jamais oferecido como contrapartida, nem mesmo o reconhecimento às
suas despesas e ao seu esforço pessoal abnegado. Com todas estas
dificuldades e inversões de valores
seus sócios já estavam acostumados, porém, ainda
lhes acenarem com a impensável e imoral perspectiva de atirá-los
em um "inferno astral", publicamente estigmatizados como "biopiratas",
é absolutamente insuportável.
Para complementar este quadro tragicômico, o Sr. Vice-Presidente, Marco Maciel, na ausência do Sr. Presidente da República, assinou uma medida provisória que "joga mais gasolina nesta fogueira", colocando sob a alçada da Polícia Federal a fiscalização das atividades científicas.
Infelizmente, o “império da boçalidade” não é uma novidade em nossa “Terra Brasilis”. Cabe lembrar o emblemático caso do lamentável confisco do tão sonhado microscópio que nosso entomólogo maior Costa Lima com enorme sacrifício trouxe da Europa, adquirido com os recursos obtidos com o “Prêmio Moinho Santista” que recebera. Até o fim de seus dias esse episódio acarretou profunda amargura àquele verdadeiro herói da brasilidade, que morreu na miséria quase absoluta, jamais tendo logrado liberar da alfândega seu instrumento de trabalho, tendo sido por isso tratado como um reles contrabandista.
Outra história que merece reflexão é a do entomólogo
Fritz Plaumann, que durante mais de meio século coletou exemplares
nas cercanias da cidade de Seara, em Santa Catarina. Este senhor descreveu
diversas novas espécies e teve seu nome utilizado para “batizar”
centenas de gêneros e espécies de insetos, em reconhecimento
do meio científico pelo seu gigantesco esforço. Entretanto,
apesar dos inúmeros documentos que elaborou protestando contra a
devastação acelerada ao seu redor, como “retribuição”,
no Brasil, Plaumann sofreu sistemática perseguição
do IBDF, atual IBAMA, como se fosse ele quem estivesse
promovendo uma campanha de extermínio biológico. Atualmente
sua coleção se constitui num patrimônio científico
de inestimável valor, pois num raio de quase 300 quilômetros
ao redor de Seara, hoje quase que só existe capim. Caso Plaumann
não tivesse levado a cabo seu trabalho, simplesmente hoje ninguém
jamais saberia que naquela região vicejava aquela mata maravilhosa
de tão rica biodiversidade e não existiria sequer registro
daquelas fauna e flora perdidas.
Pode-se também observar um corporativismo decorrente de um rancoroso preconceito contra os amadores, o que é absolutamente injusto e irracional, tendo em vista que a base das grandes coleções dos Museus e Instituições científicas em todo o mundo foi feita sobre coleções de amadores, que empenharam seu tempo, dinheiro e dedicação à ciência. Cabe lembrar que Darwin, Wallace e Bates eram amadores (entre inúmeros outros nomes da maior projeção dentro do meio científico).
Finalmente, encareço-lhe, por favor, que não tome este
arrazoado como uma tentativa de "ensinar padre a rezar missa". Trata-se
apenas de um desabafo de quem viu "uma luz no fim do túnel" com
o artigo do Governador Amazonino Mendes, que pondera ser muito mais proveitoso
e sensato se fazer um convênio com aqueles pesquisadores (que são
bem aparelhados e contam com recursos que nosso Governo não oferece),
ao invés de criminalizar suas atividades, o que só tornará
mais atraente a biopirataria e favorecerá os verdadeiros criminosos.
Espero que perceba aqui apenas uma tentativa de "lançar na mesa"
alguns aspectos a serem considerados no âmbito das discussões
para, se possível, reverter o atual quadro de histeria coletiva
incentivado, a meu ver, por um “caldo de cultura” de ignorância
generalizada e alimentado por interesses escusos inconfessáveis,
lesivos ao nosso já tão atrasado País. Ficaria profundamente
agradecido se você ponderasse sobre meus termos circunstanciados
e comentasse os aspectos aqui expostos. Espero também que você
discuta estes aspectos com seus colegas. Sentir-me-ei muito feliz se estas
minhas palavras puderem de qualquer modo trazer alguma luz ao contexto
de obscuridade da ótica de “caça às bruxas”, típica
da “Santa Inquisição” que prevalece em nosso País
e acrescentar argumentos que possam ser de utilidade para que seja efetuado
um trabalho que resulte em real benefício para o meio científico
e para o Brasil.
Só o amor constrói!
Um abraço,
Celso Lima Godinho Júnior