COLECIONANDO LEPIDÓPTEROS

Preparação para coleta noturna - Photo by Luiz S. OteroColecionar lepidópteros não é uma atividade restrita à entomólogos profissionais, ou uma atividade de pessoas esquisitas, como por vezes a mídia exibe, ao criar personagens bizarros como colecionadores, tal como já foi visto em uma novela de TV no passado ( quem não ouviu falar no "Dirceu Borboleta", personagem interpretado pelo ator Emiliano Queiroz, e que se tornou o pseudônimo jocoso pelo qual todo colecionador é imediatamente identificado pelas pessoas em geral.)...
O hobby de colecionar insetos em geral, especialmente lepidópteros, era muito popular no século XIX e ao logo do tempo vem perdendo espaço devido a aceleração da vida moderna onde não se tem tempo para quase nada, além da deterioração do próprio ambiente, que vem afastando das cidades a maioria das espécies.  Muitas pessoas preferem grandes areas cimentadas em vez de jardins arborizados, que "sujam" o chão com folhas secas... O combate a insetos hematófagos como os mosquitos também destrói a população urbana de lepidópteros (os mosquitos se escondem dentro das casas, protegidos do inseticida fumegado nas ruas, já as borboletas se abrigam apenas na vegetação...) e cada vez se torna mais difícil vê-las fora das florestas.  Muitos colecionadores se interessaram pelo hobby ainda quando crianças, pois toda criança se fascina com a beleza das borboletas.  Esse encanto tem sido negado às crianças de hoje em dia, salvo aquelas previlegiadas que moram fora dos grandes centros urbanos.
Photo by Alexandre Soares
Há quem considere o hobby de colecionar lepidópteros uma ameaça ecológica.  Porém se observarmos a realidade  que a coleta pode representar em termos de baixas na população desses insetos, comparada ao que acontece  normalmente na natureza, e à própria fecundidade do inseto, o efeito da coleta é desprezível.  Não foram os colecionadores que extinguiram todas espécies que já desapareceram...  A agropecuária, as indústrias e a especulação imobiliária são muito mais nocivas a esses insetos que os colecionadores de modo geral.

Para colecionar lepidópteros, além de habilidade manual e amor à natureza para coletar sem depredar, alguns itens são necessários para a coleta, manipulação e preservação dos espécimes:


ITENS PARA COLETA

PUÇÁ - O primeiro ítem para se coletar borboletas ou qualquer inseto alado é o puçá.  Uma rede fina em forma de saco estendida em um arco de metal com um cabo para manejo.  Essa rede pode ser feita em casa, usando-se tecido do tipo "filó", preferencialmente de cor escura, por ser menos visível para o inseto.

ENVELOPES- Os lepidópteros após serem coletados, devem ser acondicionados em envelopes individuais feitos em papel vegetal, onde inclusive podem ser mantidos vivos.  Desse modo ao coletar um exemplar com a asa danificada por algum predador, o colecionador pode mais tarde liberar aquele exemplar, ao coletar outro sem danos ( é recomendável ao colecionador limitar sua coleção em, no máximo, três exemplares de cada espécie. Sendo que nada vai contra o colecionador que se limite a apenas um exemplar de cada espécie).  Voce deve sempre estar com um bom número desses envelopes quando for coletar, para não ter que colocar mais de um exemplar em um mesmo envelope, pois estes se danificariam mutuamente...
Nestes mesmos envelopes os exemplares podem ser mantidos depois de mortos, para preparação futura.

ISCA - Nem todos os lepidópteros se alimentam do néctar das flores.  Muitas espécies, especialmente as de grande porte, se alimentam do suco de frutas fermentadas que são encontradas aleatóriamente pela floresta.  Estas espécies costumam voar grandes distâncias em busca de pistas que levem ao alimento, e uma boa forma de se capturar essas espécies é atraí-las com uma isca de frutas bem maduras e de cheiro forte (banana, manga, jaca, etc...), colocada em pontos onde o aroma das frutas possa ser levado pela correnteza do ar.
Com isso, basta de vez em quando verficar se algum exemplar foi atraido pela isca.  Após algum tempo não será difícil serem vistas diversas espécies ao redor da fruta, permanecendo ali por vários minutos.

BLOCO DE ANOTAÇÕES- Pode acontecer de voce sair pra coletar durante vários dias, em locais bem diferentes e distantes.  Desse modo pode ser difícil memorizar todas as informações pertinentes a cada exemplar coletado.  Para garantir que essas informações não se percam, é importante para o colecionador portar um pequeno bloco de anotações. de modo que cada exemplar pode ser acondicionado em um envelope, preveamente numerado, e nesse bloco as informações sobre cada exemplar ser anotada, associada ao numero do envelope que o contém.  Essas informações devem ser passadas mais tarde para as etiquetas de identificação de cada exemplar, respectivamente.


ITENS PARA PREPARAÇÃO DE ESPÉCIMES

ÉTER - Para matar os insetos, o melhor e mais prático recurso é utilizar éter hospitalar comum.  Ao ser aplicado em pequena quantidade no corpo do inseto, o éter o mata instantâneamente.

CÂMARA ÚMIDA- Os exemplares que já estão mortos há mais de dois dias começam a secar, e a montagem desses exemplares poder resultar em danos sérios aos mesmos.  Para contornar isso usa-se a câmara úmida, onde o inseto seco é colocado para absorver umidade e então poder ser montado normalmente após alguns dias.  Esse processo é indispensável para se preparar exemplares adquiridos já secos, quando estes podem ter estado armazenados em envelopes por alguns meses (veja como preparar uma câmara úmida).   Os exemplares que são coletados e preparados no mesmo dia não necessitam passar por esse processo.

ALFINETES - Todos os exemplares devem ser fixados em alfinetes, de modo a que possam ser manipulados em segurança (veja como alfinetar corretamente um espécime).  A princípio qualquer alfinete pode ser utilizado, porém os alfinetes comuns tendem a oxidar com o tempo, o que pode dar um aspecto desagradável à apresentação da coleção, além de com o tempo a ferrugem causar a quebra do alfinete.  O ideal é utilizar alfinetes entomológicos, que são alfinetes especiais, longos e finos, em aço inoxidável com proteção anti-corrosão.  Esses alfinetes não são fabricados no Brasil.  Há diversas marcas, sendo de maior qualidade os alfinetes da marca Elephant, feitos na Austria.  Esses alfinetes podem ser comprados facilmente pela Internet usando-se  cartão de crédito, em lojas como a Ben Meadows Company ou Ianni Butterfly Enterprises, ambas nos E.U.A., ou mesmo com a Papillon, aqui no Brasil.

Photo by Felipe C. Miranda

ESTICADOR - Uma vez fixado em um alfinete, o espécime deve ter suas asas estendidas e assim mantidas até estar completamente seco, o que, à temperatura ambiente, pode levar em média duas semanas (essa etapa pode ser acelerada se voce dispor de uma estufa).
Para manter o inseto com as asas posicionadas é necessário um artefato, normalmente feito em madeira, chamado de "prancha de montagem" ou "esticador".  O esticador é um ítem que deve estar adaptado ao porte do inseto que será montado nele, de modo que é preciso ter diversos esticadores, com diversas larguras, de modo a acomodar espécimes pequenos e grandes (veja como fazer um esticador).

FOLHAS DE POLYÉSTER- Para posicionar as asas dos lepidópteros corretamente, de modo a exibir todos os detalhes de ambas as asas, é preciso fixar as asas em uma determinada posição até que o inseto fique completamente seco.  Para isso se utilizam tiras de papel esticadas sobre as asas e fixadas com alfinetes no esticador (veja como montar lepidópteros para coleção).  Voce pode utilizar qualquer papel fino, como papel vegetal ou papel-manteiga.  No entanto estes, assim como qualquer papel, sofrem grande influência da umidade do ar e da temperatura ambiente.  Com isso, ao esticar uma tira de papel pela manhã, esta pode afrouxar à noite, quando a umidade do ar aumenta.  O "papel" polyéster, encontrado facilmente em lojas de artigos para desenho,
não sobre esse tipo de efeito por ser um material plástico impermeável.  Por isso o polyéster é mais recomendável para o serviço de esticar as asas do inseto.


FORMANDO UMA COLEÇÃO

CAIXA PARA COLEÇÃO- Uma vez preparados os espécimes, é preciso uma caixa para que estes sejam guardados em segurança.  Essa caixa pode ser até uma simples caixa de papelão, porém para ter a garantia da durabilidade de sua coleção é importante que a caixa seja de madeira e que a tampa desta tenha um encaixe bom o bastante para garantir a vedação completa.  Para conservar seus espécimes ao longo dos anos livre do mofo, fungos e outros parasitas, é importante adicionar naftalina  no fundo da caixa.  A naftalina deve ser em pó.  Caso voce não consiga encontrar a naftalina vendida já em pó (é difícil de conseguir) voce pode utilizar as típicas bolinhas de naftalina, desde que voce as quebre e depois pique os pedaços até ficar quase em pó (bolas de naftalina rolando no fundo da caixa são um risco constante para seus espécimes...).  Uma outra opção é utilizar um produto facilmente encontrado em supermercados chamado MOFIL, que são tabletes acondicionados em caixas individuais e que podem ser fixadas na lateral interna da caixa da coleção.

ETIQUETAS DE IDENTIFICAÇÃO- Após cada exemplar estar pronto para ser colocado na coleção, este deve receber etiquetas que contenham informações sobre aquele exemplar, isto é, aquelas informações anotadas no ato da coleta.  As informações mais importantes são:

Nome do coletor
(quando disponível)

Data de coleta
(dd/mm/aaaa)

Local da coleta
(local, cidade mais próxima, país)

Identificação
(família, sub-familia, gênero e espécie)

Uma série de outras informações podem ser adicionadas, dependendo da natureza e da finalidade de sua coleção.  Essas informações podem ser colocadas em mais de uma etiqueta, porém é recomendável que estas não sejam muito grandes chamando mais atenção que o exemplar, nem em número maior que três (veja em etiquetando seu espécime).  Voce pode associar um número ainda maior de informações a cada exemplar.  Basta adicionar uma pequena etiqueta extra, fixada em um alfinete ao lado inseto, contendo um número de identificação.  Com isso toda uma gama de informações podem ser disponibilizadas em uma tabela fora da caixa da coleção, associadas ao espécime por meio da etiqueta codificada ao lado deste.

Com todos esses cuidados voce terá uma excelente coleção onde o valor de seus espécimes terá o mesmo nível de qualquer coleção científica como as que são encontradas em museus.